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2005 | Rosângela Rennó

Desde 1987 Rosangela Rennó vem se utilizando da apropriação de imagens fotográficas para desenvolver sua própria linguagem, sua maneira de contar histórias. O vídeo foi introduzido em sua obra em decorrência dessa prática, para complementar e ampliar o alcance dessas histórias.

Espelho Diário é um trabalho totalmente realizado em vídeo, na qual a própria artista encena a vida de uma personagem múltipla, criada a partir da colagens de histórias de Rosângelas de todo o Brasil, extraídas de jornais entre os anos de 1992 e 2000.

“Colecionadora irreprimível”, se define a artista, o que a levou a capturar momentos de vida de 133 Rosângelas que foram retrabalhados pela escritora Alicia Duarte Penna e transformados em monólogos de um diário interpretado no vídeo pela própria artista. Situações datadas da vida de várias Rosângelas em um documento-imagem, numa diversidade de roupas e cenários que ajudam a compor os momentos e singularidades de cada pequena história.

A projeção sincronizada é feita sobre duas telas em ângulo, criando a sensação de uma imagem e seu espelho. Sem começo, nem fim, apesar das datas espelhadas no vídeo, o relato de uma vida impossível. O tom de monólogo reforça a singularidade de cada situação; “não se trata de reclamar uma identidade fundada numa mais-valia de expressão, normalmente tão reclamada pelos pressupostos humanistas, mas de inscrever o que é absolutamente casual e singular nas suas vidas apesar de qualquer ordem prévia que pretenda exercer o seu domínio categorial”. (Pedro Lapa  Museu do Chiado - Lisboa)

A vídeo-instalação tem ainda um elemento-chave: um Intróito [introdução], no qual o locutor Cid Moreira narra em tom espetacular uma apresentação para o vídeo que desconcerta, não só pelo tom hiperbólico da narração, mas pelo inusitado dos erros de concordância nominal: “somente elas era umas: Rosângelas, este conjunto unitário, esta dízima periódica, este singular plural...”.

A recriação discursiva em Espelho Diário põe à prova o sentido de multiplicidade/unicidade e a expressão disso, totalmente em vídeo, opção rara no trabalho da artista, confere à obra um caráter ainda mais singular. A possibilidade de uma Rosângela a partir de tantas outras recortadas da vida real cria quase um novo gênero, nem ficção nem documentário. Como define Pedro Lapa: “a estratégia de articulação desenvolvida por Rosângela Rennó aceita as diversas acepções, tornadas ou não obsoletas relativamente ao próprio meio, e suas modalidades, para lhes devolver uma possibilidade criativa ativa, a de confrontar a ideologia do quotidiano”.
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